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Criptorquidia em cães

Durante o processo normal de desenvolvimento da genitália externa dos machos os testículos fetais migram da cavidade abdominal para o interior da bolsa escrotal, mesmo antes do nascimento. Particularmente, nos cães, a fase final de migração das gônadas para a bolsa escrotal inicia-se por volta do quarto dia após o nascimento e deverá estar completada ao redor do décimo dia. Entretanto, é importante ressaltar que nesta idade não são facilmente palpáveis.

O criptorquidismo canino se caracteriza pela ausência da completa migração de um (unilateral) ou dos dois testículos (bilateral) da cavidade abdominal para o interior da bolsa escrotal. Em geral, em condições normais, os testículos são palpáveis na bolsa a partir de 6 a 8 semanas de idade. Entretanto, a completa descida das gônadas para o interior da bolsa escrotal pode, algumas vezes, ocorrer mais tardiamente e, nestes casos, é uma ocorrência mais comumente observada em cães com criptorquidismo unilateral. (Meyers-Wallen, V.N. : Gonadal and sex differentiation abnormalities of dogs and cats. Sex Dev 6:46-60, 2012). 

Estudos em humanos mostram que a descida dos testículos nesta espécie sofre a influência da testosterona e do fator 3 da insulina e que mutações nos genes que os sintetizam, ou naqueles que sintetizam seus receptores, determinam criptorquidismo. Entretanto, até o momento, nenhuma mutação homóloga foi descoberta em cães. Da mesma forma os genes que sintetizam os receptores de estrogênio e andrógenos são suspeitos de participarem dessa patologia, o que poderia explicar alguns casos de criptorquidismo associados a anomalias congênitas da genitália interna.

Em geral o diagnóstico clínico do criptorquidismo canino se dá quando os cães são rotineiramente examinados para as primeiras vacinações. Nestes casos, independentemente do animal ser uni ou bilateral, a orientação é sempre a remoção dos testículos visto que além do risco muito aumentado de câncer no testículo ectópico a retirada das gônadas evita a transmissão dos componentes genéticos para as gerações futuras. 

Nos cães acredita-se que a criptorquidia seja uma patologia poligênica e estudos genômicos estão sendo conduzidos para melhor caracterização da etiologia (Zhao, X., Onteru, S., Saatchi, M., Garrick, D., Rothschild, M. : A genome-wide association study for canine cryptorchidism in Siberian Huskies. J Anim Breed Genet :, 2013). 

É importante considerar que do ponto de vista genético a criptorquidia é uma patologia limitada ao sexo. Isso significa que os genes determinantes da patologia estão localizados nos cromossomos não sexuais (autossômicos). Logo, embora a condição só seja observada nos machos (limitada ao sexo), tanto as fêmeas como os machos possuem os genes para a anomalia e os transmitem à descendência, o que torna o processo de seleção contra a criptorquidia canina mais complexo. Na ausência de marcadores genéticos para os genes da criptorquidia a castração dos animais afetados e o controle rigoroso dos pedigrees, por partes das associações de raças, são armas indispensáveis ao processo de seleção contra a patologia.

Irineu M. Benevides Filho
Médico Veterinário, Doutor em genética

 

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