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Como os cães e os gatos pegam Raiva a partir dos morcegos?

A raiva é uma das doenças mais temidas pela Humanidade. Há pelo menos 5.000 anos existem registros dessa zoonose fatal (zoonoses são doenças naturalmente transmissíveis entre animais vertebrados e seres humanos), sendo transmitida para pessoas por cães e lobos infectados com o vírus da raiva. Ainda nos dias de hoje, entre 30.000 e 50.000 pessoas morrem todos os anos vítimas da raiva no mundo, principalmente em países da Ásia e África. No Brasil, desde final da década de 1970 e início da década de 1980, as campanhas de vacinação antirrábica canina e felina vêm reduzindo drasticamente a transmissão do vírus, promovendo o controle da doença humana na maioria dos estados brasileiros.

A partir das últimas três décadas do século passado, no entanto, a doença que caminhava para um processo de erradicação, vêm apresentando uma mudança no seu perfil epidemiológico. O incremento da pecuária e as alterações provocadas ao meio ambiente, causadas pela falta de planejamento da expansão da agricultura e da própria pecuária, entre outros aspectos, favoreceram uma maior proliferação de morcegos hematófagos (que se alimentam de sangue animal e, eventualmente, humano) e uma dramática redução de seus predadores naturais.

Nesse contexto, pode-se considerar que existe uma superpopulação do morcego Desmodus rotundus (vulgarmente chamado de vampiro). Esses morcegos são reservatórios do vírus rábico e responsáveis por consideráveis perdas econômicas, particularmente na pecuária bovina. Acontece que esses morcegos, que vivem em colônias e possuem hábitos noturnos, não raramente, dividem seus refúgios com outras colônias de morcegos – não hematófagos e de imensa importância para o meio ambiente, pois se alimentam de frutas, néctar ou insetos (dependendo da espécie) – e podem transmitir o vírus para indivíduos dessas colônias. Por outro lado, as transformações ambientais e a expansão de áreas urbanas têm forçado populações dessas espécies de morcegos a se adaptarem a ambientes urbanos e, com isso, esses morcegos passam a coabitar a cidade com o cão, o gato e seres humanos.  

   E como os cão e gato se infectam a partir dos morcegos?

O que determina o contato dos cães e gatos com os morcegos é justamente o fato de que morcegos não hematófagos, infectados com o vírus da raiva, desenvolverem um quadro de encefalite, o que provoca alterações em seu comportamento, fazendo com que eles passem a voar durante o dia. Além disso, a infecção causa uma paralisia progressiva que os impede, com a evolução da doença, de retornar ao refúgio. Com isso, esses morcegos se tornam presas fáceis para cães e gatos, que possuem instinto predador. Ao serem capturados, mordem o animal caçador de modo a se defender e, assim, inoculam o vírus que se encontra na sua saliva, infectando o cão ou o gato, que passam a transmitir o vírus da raiva para outros animais e para pessoas.

Existe também a invasão de espaços urbanos por morcegos hematófagos que, na falta de animais de pecuária dentro das cidades, se alimentam do sangue dos animais de companhia e do sangue humano e, nesses casos, se os morcegos estiverem infectados, poderão transmitir o vírus da raiva aos animais de companhia ou diretamente a humanos.

Autora:
Sandra Mª. Gomes Thomé*
*Prof.ª Associada do Depto. Epidemiologia e Saúde Pública Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro  

 

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