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Como os Microorganismos e Parasitas de animais conseguem infectar os seres humanos?

”A resposta parece nos remeter ao alvorecer da civilização humana”

Como agentes que evoluíram por centenas de milhares de anos, parasitando outras espécies animais conseguem – “de um momento para o outro” – infectar e causar doenças em pessoas? A mesma pergunta serve para nos questionarmos: como parasitas adaptados a seres humanos passam a afetar outras espécies animais? Quando e como isso passou a acontecer? O que provocou a possibilidade de um microrganismo adaptado a uma espécie se transferir para outra, caracterizando uma zoonose?

Com o advento da agricultura, quando nossos ancestrais caçadores-coletores passaram a domesticar os animais ao invés de caçá-los, e, algum tempo depois, a plantar grãos e pastagens e abandonou o nomadismo, se tornando sedentário.

Antes desse período, os humanos viviam em pequenos grupos, que se deslocavam com frequência para locais onde o alimento fosse mais farto, houvesse abrigo e clima mais ameno, deixando para trás seus dejetos e o pouco lixo orgânico que produziam; quando as condições ambientais se tornavam adversas, novamente transferiam seus acampamentos e deixando sempre seus resíduos, microrganismos e formas evolutivas dos parasitos para trás.

Essa constante mudança de ambiente e o número reduzido de indivíduos não ofereciam condições necessárias para a manutenção da transmissão de agentes de doenças agudas e capazes de causar epidemias, uma vez que – caso isso acontecesse – o grupo todo sucumbiria e a doença tenderia a desaparecer; também a que se considerar que o estilo de vida não proporcionava contato próximo e prolongado com populações animais; somente tinham contato com o fruto da caça – que era imediatamente abatido e consumido e, eventualmente, com um cão ou uns poucos cães selvagens, que foram os primeiros animais domesticados, pois se mostraram excelentes parceiros de caça. O surgimento da agricultura, no entanto, modificou radicalmente o comportamento humano com relação ao ambiente e ao relacionamento com outras espécies animais.

 O homem, então,  se fixou em local propício para criar e reproduzir seus próprios animais e se dedicou a plantar grãos e outros alimentos, tanto para consumo próprio como para alimentação animal, principalmente para mantê-los nos períodos de inverno rigoroso ou estiagem prolongada. Em pouco tempo, essa maior oferta de alimentos proporcionou um crescimento significativo tanto de humanos como dos animais de produção. O sedentarismo, por sua vez, levou a uma maior densidade populacional – humana e animal -,  a um acúmulo crescente de excretas e outros resíduos orgânicos no ambiente e, não bastasse isso, alimentos produzidos em quantidade maior do que a consumida, passaram a ser armazenados em galpões, para consumo futuro, o que se tornou um enorme atrativo para espécies animais indesejáveis, como foi o caso dos roedores.

A presença desses animais, por sua vez, provocou como consequência a domesticação de uma nova espécie: o gato. Gatos são inimigos e predadores naturais de roedores; acrescentando mais uma espécie animal à circular e se reproduzir junto ao homem. Não bastasse a variedade crescente de animais vertebrados – domesticados ou não – no ambiente humano, cada espécie animal, por sua vez, trazia consigo, não somente seus agentes próprios de doença, como também seus ectoparasitas.

Ademais, a fartura de dejetos humanos, animais e matéria orgânica vegetal acumulados no ambiente, se tornaram fatores de atração para insetos que se alimentavam desse material em putrefação ou cujas larvas se desenvolviam nele. Tal foi o caso de artrópodes que se proliferavam nesse ambiente favorável e, muitos deles - particularmente as fêmeas –  faziam repasto sanguíneo em animais e humanos e, não raramente, transferiam patógenos de uma espécie para outra.

A convivência próxima e prolongada, associada à crescente expansão populacional, provavelmente, permitiu que algumas espécies de patógenos cruzassem a barreira interespécie e se adaptassem a novo(s) hospedeiro(s). Estima-se que foi assim que os “principais assassinos” da humanidade em nossa história recente, varíola, gripe, peste bubônica, malária e tuberculose, só para citar alguns exemplos, sejam doenças cujos agentes eram originários de animais e se adaptaram para a espécie humana, de tal modo que se tornaram, com o tempo, restritos ou quase restritos a seres humanos.

Como os “principais assassinos” da humanidade se adaptaram à espécie humana?

Novamente nos perguntamos: mas como é possível? O que faz com que o patógeno vença a barreira entre a espécie para a qual está adaptado para uma outra espécie, antes estranha ao ele? A explicação mais factível nos reporta à genética e ao tempo de geração da maior parte dos microrganismos. O tempo de geração de uma Escherichia coli em condições adequadas de temperatura e nutrientes é de aproximadamente 20 minutos. Um microrganismo, se multiplicando em novos microrganismos em períodos de tempo tão curtos, acaba por permitir uma quantidade significativa de mutações.

O Quadro abaixo mostra um crescimento bacteriano a intervalos de 15 minutos; uma hora após ter sido semeado em meio de cultivo adequado, pode-se verificar uma quantidade espantosa de bactérias mutantes (em verde).

http://pt.slideshare.net/pedrofilho91/morfologia-metabolismo-gentica-e-c.... Acesso em 07/08/2015.

Imaginemos que uma dessas mutações permita que a bactéria que antes infectava exclusivamente cães ou gatos passe a ser capaz – após a mutação – de infectar também humanos. A partir desse exemplar mutante, as novas gerações, potencialmente, serão capazes de infectar tanto cães ou gatos como humanos. O mesmo pode acontecer com microrganismos humanos: alguns mutantes poderão infectar outra(s) espécie(s), além da humana: temos aí a provável origem das zoonoses.

Autora:
Sandra M. G. Thomé*
* Médica Veterinária. Professora Associada 1. Depto de Epidemiologia e Saúde Pública. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
Contato: sandrathome@ufrrj.br

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Comentários

Mário Brito

Gosto muito de estar atualizado em relação ao assunto : Zoonoses. Parabéns pela publicação.

qui, 08/06/2017 - 12:12
busquepets

Grato por interagir conosco. Esse  é um dos objetivos do busquepets

 

 

seg, 12/06/2017 - 09:42
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